sexta-feira, 31 de julho de 2009

Álbum de família

O álbum de família aberto:
da poeira vem o espírito
perdido no passado.

E surge do vazio
um vigor desmedido,
restos e reminiscências rudes.

Uma criança corre, uma tia chora,
bolos ganham forma e cores,
velas são sopradas para sempre.

Esse morreu, esta já se foi
Aquele não morreu,
mas está morto.

Não me lembro se eram felizes.
Sorrisos de fotografias
são melancólicos e ridículos.

Pessoas desconhecidas,
lugares estranhos,
casas nunca visitadas.

As imagens já não são imagens,
são agora vidas passadas
que se sucedem.

E não me vejo, nunca.
Vejo o crescimento de alguém
que convencionaram ser eu.

Não me sei, sou.
E não sei ser. Só
sei ser só.

E só minha sombra se parece
com a mesma sombra
que ainda trago nos pés.

Toco nas mãos esticadas
e arrepio-me como se tocasse
num irmão ignoto.

Sem dor passo as folhas
- rápido para não molhá-las
com lágrimas sem razão.


Na última página fixo
uma foto de ontem
com cola e desapego.

Não conheço quem ali está,
não sei onde estão,
nem que mão os colou.


Everton Lourenço

terça-feira, 9 de junho de 2009

Noites

Caminhando por uma avenida secreta
pela cidade uma dor material em forma de pus.
Caminhando por uma avenida oculta
uma mulher chora com as mãos no rosto,
uma mulher sorri com as mãos no ventre.

Caminhando por uma rua dura
um instante a consternação
de saber que há outros iguais na caminhada
e na desolação de olhos fechados.
Caminhando por uma rua seca
o rosto úmido do sereno da madrugada
- parece agora mais natural.

Caminhando por um beco apertado
o coração acelera com as batidas
involuntárias dos que vêm na direção oposta.

Na cama já é manhã,
levanta suado e sujo.
Toma um banho quente e inútil.
Sai. Caminhando, caminhando
sempre.




Everton Lourenço

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Teu corpo


Teu corpo novo e profundo:
límpida pele estendida
irrepreensivelmente
sobre cálcica escultura.

Escorro por acidentes
de tuas rígidas formas
e vago por teus desvãos
íntimos e intangíveis.

Mergulho em sonho na pura
umidade indecifrável
do teu âmago secreto
- o mais belo e bruto amor.

Desabo insano, enfermo,
inerte no teu abraço:
permutações sucessivas
de domínio do universo.

Morro em múltiplos instantes
de investida alucinada.
Encontros e desencontros,
silêncios e sons, vazios.

Teu corpo novo e profundo:
recebe-me como à vida
e guia minha dura alma
por breves eternidades.


Everton Lourenço

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Bela morte



Os gregos de outrora
achavam bela
a morte bélica:
a dor da espada
anunciava irrevogável
um fim glorioso.

Besteira!
Prefiro morrer dormindo:
levar para sempre
a esperança de
acordar.



Everton Lourenço

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ouro Preto



As igrejas duras
pesadas, de cor estranha
dormem inda novas.

Os vales profundam,
- vácuos do meu coração -
refletem silêncios.

O povo que sobe
as ladeiras infinitas
de pedra e de pó.

Em todos os esses
a novidade do outro:
espelho disforme.

A vida levada
de subir e de descer
E de outros mistérios.
Everton Lourenço

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Cantiga para um dia azulescente



Dia que nasceu
É breve poema azul
que a noite esqueceu.


Andorinha canta
alguma canção de dor
e as núvens espanta.



Borboletas voam
espocam à luz macia
as cores ecoam.



Sol cresce no ar
vento briseia mais quente
- é vapor do mar.



De volta ao verão:
o verde arvorece novo
vai o velho ao chão.








Everton Lourenço

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Canção do Desejo

Canção do Desejo


O meu desejo é inominável
É a mais indizível da coisas
Traz dor e alento:
O delírio das tormentas
E a calma do depois.

Tem a força que faz girar o mundo
E a delicadeza do mínimo
Que nada é além de possibilidade.
É a dor que vem do sorriso
O vazio penoso de se ter tudo.

É o barulho distante
Que insiste em chegar ao ouvido
No silêncio da madrugada.
É a liberdade única de se estar preso
Com a porta aberta.

Desejo tudo aquilo que não tem nome
Tudo que não tem forma, toda a não limitação.
Eu desejo o indesejável.



(Everton Lourenço)

domingo, 20 de julho de 2008

O Jantar


Aguardava o namorado. Mal podia esperar por sua chegada. Pela primeira vez ele iria a sua casa e conheceria os seus pais. Lúcia já tinha seus vinte e dois anos e esse era o seu primeiro namorado. Não era bonita, nunca foi uma daquelas moças cobiçadas da escola. Não que fosse feia; não era. Mas sempre passou despercebida com o seu rosto comum, sua timidez e seus óculos muito grandes. Esperava. Os pais também estavam ansiosos. Não tinham mais um casamento ardoroso, ainda mais agora que Arthur encontrara alguns bilhetes comprometedores na bolsa de Cândida. A mulher não negou o delito. Pelo contrário, despejou-lhe na cara que tinha um amante muito mais jovem, muito mais homem. Dormiam ainda juntos, mas o medo da comparação não deixava mais Arthur procurar a mulher, o que era para ela um alívio. Cândida nunca revelou a identidade do seu amante, mas o marido conhecia seu nome da assinatura dos bilhetes: Augusto. Nunca mais falou-se no assunto naquela casa. Embora a sombra da ameaça de Arthur sempre pairasse sobre eles, lembrando que o marido traído jurara um dia ainda matar o rival.
A mesa estava posta. Todos sentados na sala com os ouvidos apurados para perceber o toque da campainha. Enfim, ele chegou. O pai demonstrava indiferença, a mãe arrumava mais uma vez o cabelo. A filha foi para porta entre caminhando e correndo, abriu. Olharam-se, riram, beijaram-se no rosto, afinal a moça era de família e o rapaz não era dado a avanços. Os jovens adentraram a sala. As apresentações correram bem. Apenas pensou Lúcia que era estranho o fato do pai parecer agora mais receptivo que a mãe. Sentaram-se. Comeram. Durante todo o jantar Arthur desfiava um imenso interrogatório, enquanto Cândida, séria, pouco falava, apenas desfechava algumas perguntas muito incomuns. Ela está querendo assustar o meu namorado, pensava Lúcia num misto de raiva e vergonha.
Ao acabarem a refeição, Cândida recolhia os pratos e partia para lavá-los quando Augusto logo se prontificou a ajudá-la. Ficando sozinho com a filha, Arthur revelou que havia gostado do rapaz e que lhe parecia ideal. Eu sei, esperei tanto, mas valeu a pena, porque ele é o homem da minha vida, respondeu a filha. O pai pegou uma garrafa do seu melhor licor encheu uma taça e foi oferecer ao seu futuro genro. Poucos segundos e Lúcia ouviu um estrondo na cozinha. Correu para ver o que era. Chegando, deparou-se com uma cena de guerra. O pai transtornado gritava coisas sem sentido. O namorado tinha um olhar que nunca demonstrara, como que um felino pronto para o ataque. É ele, filha! Esse é aquele tal de Augusto! Eu entrei e vi esse safado e sua mãe... A frase nem terminou de sair de sua boca e Arthur lanço-se contra o oponente. A briga estendeu-se por alguns instantes, quando enfim o pai desapareceu pela porta para logo retornar com uma arma em punho. Não atirou de pronto. Hesitou. Tempo suficiente para Augusto segurar-lhe a mão e tentar desarmá-lo. Nova luta. Agora ambos seguravam o revólver. O cenário da tragédia já estava pronto. Lúcia, temendo o pior, interveio. Tentou separar pai e namorado. Um único disparo. Não se sabe ao certo quem apertou o gatilho. Ninguém pode afirmar se o assassino de Lúcia foi um ou outro. Dizem alguns que a arma disparou sem que lhe puxassem o gatilho. Certo é que por coincidência ou por determinação do Destino a menina findou-se ainda por iniciar.
Semelhante destino teve Arthur, apenas com a diferença de que certeza há que a mão assassina foi a sua própria. Cândida também foi para o outro lado. Reside agora num sanatório que pensa ser o céu e passa os dias a procurar a filha e o marido e tentando fugir dos demônios que sub-repticiamente vestem-se de branco e tentam raptá-la para o inferno. Augusto continua por aqui. Recentemente marcou casamento com uma bela jovem. Logo vão unir-se eternamente, até que a morte os separe.

(Everton Lourenço)