sábado, 21 de agosto de 2010

Haicai III


Passarinhos voam
em bandos que cobrem
fragmentos de sol.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Haicai II


O peixe mergulha
do seu salto sobre a rocha:
o rio não para.


Everton Lourenço

segunda-feira, 22 de março de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Que tal um poema à moda antiga?


MOTE

Não me quero com as musas
Para o inferno todas elas!

VOLTAS

Se me inspiro com o amor,
Uso a pena com ardor.
Nem careço das difusas
Para trovas muito belas.
Não me quero com as musas
Para o inferno todas elas!

Quando às tais eu recorria
Logo a treva a mim fazia
Minhas glosas tão confusas
Como a noite sem as velas.
Não me quero com as musas
Para o inferno todas elas!

Se ao meu mote igualar,
Vosso gesto vou cantar.
Minh' amada, as obtusas
Sem esforço desnivelas.
Não me quero com as musas
Para o inferno todas elas!

Tenho em ti inspiração
Pois o amor jamais é vão.
E outras coisas são escusas
Sejam deusas ou donzelas.
Não me quero com as musas
Para o inferno todas elas!


Everton Lourenço

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Álbum de família

O álbum de família aberto:
da poeira vem o espírito
perdido no passado.

E surge do vazio
um vigor desmedido,
restos e reminiscências rudes.

Uma criança corre, uma tia chora,
bolos ganham forma e cores,
velas são sopradas para sempre.

Esse morreu, esta já se foi
Aquele não morreu,
mas está morto.

Não me lembro se eram felizes.
Sorrisos de fotografias
são melancólicos e ridículos.

Pessoas desconhecidas,
lugares estranhos,
casas nunca visitadas.

As imagens já não são imagens,
são agora vidas passadas
que se sucedem.

E não me vejo, nunca.
Vejo o crescimento de alguém
que convencionaram ser eu.

Não me sei, sou.
E não sei ser. Só
sei ser só.

E só minha sombra se parece
com a mesma sombra
que ainda trago nos pés.

Toco nas mãos esticadas
e arrepio-me como se tocasse
num irmão ignoto.

Sem dor passo as folhas
- rápido para não molhá-las
com lágrimas sem razão.


Na última página fixo
uma foto de ontem
com cola e desapego.

Não conheço quem ali está,
não sei onde estão,
nem que mão os colou.


Everton Lourenço

terça-feira, 9 de junho de 2009

Noites

Caminhando por uma avenida secreta
pela cidade uma dor material em forma de pus.
Caminhando por uma avenida oculta
uma mulher chora com as mãos no rosto,
uma mulher sorri com as mãos no ventre.

Caminhando por uma rua dura
um instante a consternação
de saber que há outros iguais na caminhada
e na desolação de olhos fechados.
Caminhando por uma rua seca
o rosto úmido do sereno da madrugada
- parece agora mais natural.

Caminhando por um beco apertado
o coração acelera com as batidas
involuntárias dos que vêm na direção oposta.

Na cama já é manhã,
levanta suado e sujo.
Toma um banho quente e inútil.
Sai. Caminhando, caminhando
sempre.




Everton Lourenço

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Teu corpo


Teu corpo novo e profundo:
límpida pele estendida
irrepreensivelmente
sobre cálcica escultura.

Escorro por acidentes
de tuas rígidas formas
e vago por teus desvãos
íntimos e intangíveis.

Mergulho em sonho na pura
umidade indecifrável
do teu âmago secreto
- o mais belo e bruto amor.

Desabo insano, enfermo,
inerte no teu abraço:
permutações sucessivas
de domínio do universo.

Morro em múltiplos instantes
de investida alucinada.
Encontros e desencontros,
silêncios e sons, vazios.

Teu corpo novo e profundo:
recebe-me como à vida
e guia minha dura alma
por breves eternidades.


Everton Lourenço